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A serenidade é azul

Marie Claire - 1998
 

Quando era criança, seu pai condenava as fotonovelas e exigia que ela lesse Shakespeare com sotaque britânico. Por força da beleza, ainda que a contragosto, ela se tornou atriz de novela. E hoje revive em "Torre de Babel" a tragédia que modificou sua vida.

Ela tinha o rostinho perfeito para ser a nova "namoradinha do Brasil". A Globo até pagou o preço exorbitante que ela pediu para contratá-la. Maitê Proença julgava-se péssima atriz, mas decidiu arriscar. Do teatro de Antunes Filho para a Joaninha da novela Dinheiro Vivo (1979), na extinta TV Tupi, e dali para as Três Marias (1980), na Rede Globo, foi um pulo. Amargou um período de críticas até emplacar seu primeiro sucesso como Dona Beija, na Rede Manchete, em 1986. Hoje, no papel da sofrida Clara, escrito especialmente para ela, em Torre de Babel, revela a consistência na construção da personagem. Apaixonada por Clementino, o homem que matou a mulher, Clara faz Maitê reviver a tragédia de sua vida: o assassinato de sua mãe por seu pai, assunto sobre o qual guarda sua mais que justificada reserva. Sem perder a serenidade conquistada, Maitê deu esta entrevista no apartamento onde mora com a filha, Maria, de 7 anos, no Rio de Janeiro.

Marie Claire - Quando você começou, vinha de dois anos de teatro experimental com o Antunes Filho, que, na época, irritado porque você estava deixando o Grupo Macunaíma para se dedicar à TV, declarou que você tinha muita necessidade de ser admirada pelo Brasil e imediatamente...

Maitê - Antigamente eu queria agradar a todos, é verdade. Eu desagradava tanto, sem fazer nada! Era por causa da beleza que eu incomodava tanto...

Marie Claire - O Daniel Filho disse que se você não fosse tão bonita seria mais respeitada.

Maitê - A beleza aqui é valorizada como em nenhum outro lugar do mundo. Mas além dessa coisa de que a beleza atrapalha, eu era ruim mesmo, era péssima atriz.

Marie Claire - Já tinha essa crítica na época?

Maitê - Muito alta. Cheguei a falar: "Olha achei que dava para isso, mas não dou, quero parar." Mas o Boni disse para eu esperar. Quando fui contratada, avisei que não sabia fazer nada, e pedi um salário que não era o que se esperava.

Marie Claire - Alto?

Maitê - Altíssimo.

Marie Claire - De onde você tirou isso?

Maitê - Vi que não ia ser simples para mim. Quando cheguei, senti o clima. Fiz umas contas, mas sem referência. Quando falei, todo mundo caiu para trás.

Marie Claire - Tem idéia de quanto pediu?

Maitê - Não sei, mas parece que o [Francisco] Cuoco ganhava igual. Era uma barbaridade. Mas ou pagavam ou eu não ia. Deu certo, mas eu era péssima.

Marie Claire - Foi Glorinha Beautmuller [maga dos atores globais] quem deu a chave da boa performance?

Maitê - Ela falou para mim: "Você está trabalhando [nas Três Marias, sua novela de estréia em 1980] ao lado de duas pessoas, uma [era a Nádia Lipp] que já vez 17 novelas; a outra [Glória Pires] faz novela desde os 5 anos de idade. O que você tem melhor do que elas? A cara. Mas veja o que você faz: você fala assim [fininho, quase miando]. Por que não fala assim [com voz natural grave]? Não precisa falar como uma menininha." Fiquei bravíssima com ela, fui embora e no dia seguinte estava falando assim [com voz natural grave]. Ela me deu toques fundamentais.

Marie Claire - Você já disse que não nasceu com talento especial para nada. Poderia ter sido qualquer coisa se fosse menos bonita?

Maitê - É provável. Teria adorado ser jornalista, cientista, trabalhar na ONU, ser uma poliglota que transita e cuida de coisas para o futuro da humanidade e se relaciona com os problemas dos países.

Marie Claire - Você se sentia um ET na Globo e "achava aquela gente burra porque citava coisas sem a menor noção do significado".

Maitê - Mas eu era um ET. Estava vindo da Índia, tinha estudado em escola americana, não sabia como era o Rio de Janeiro. Tive que reduzir meu vocabulário a "legal" e "chato" quando fui morar no Rio.

Marie Claire - Só foi pra Globo no sexto convite?

Maitê - Não queria mesmo. Jamais considerei ser atriz na vida. Eu estava matriculada na Sorbonne. Talvez me interessasse, eventualmente, por um trabalho atrás das câmeras, roteiros de cinema. Mas quando mostrava que dizia coisa com coisa, que tinha lido alguns livros e falava idiomas, enfim, que tinha uma formação, esse conjunto deixava as pessoas apatetadas.

Marie Claire - Você era arrogante?

Maitê - Não tinha nenhum deslumbramento por estar trabalhando na Globo. Não porque fosse esnobe, mas porque nunca tinha visto televisão. Nem sabia quem era o Francisco Cuoco. Não sabia quem era essa gente. Não se via televisão na casa dos meus pais. Se quisesse ver tinha que ir para o quarto da empregada. E, se soubessem que eu estava lá, era chamada para fazer algo.

Marie Claire - Como ler Hamlet com sotaque britânico [exigência do pai]?

Maitê - Como ler Hamlet. Uma vez, em Ubatuba, estava lendo uma fotonovela e deixei a revista aberta na mesa. Quando voltei, estava escrito: "Subliteratura para indivíduos mentalmente retardados." Coisa do meu pai.

Marie Claire - Você teve uma formação mais sólida do que a média das pessoas?

Maitê - Eu não tive uma vida de classe média. Meus pais eram intelectuais, é outro pensamento. Minha mãe era delegada cultural de 66 municípios. Fazia óperas. O teatro que tem em Campinas, o projeto foi aprovado por ela. Ela trazia óperas da França para Campinas, que depois circulavam por todo o interior de São Paulo.

Marie Claire - Você nasceu em Campinas?

Maitê - Não. Meus pais moravam em Ubatuba. Foram para São Paulo me ter.

Marie Claire - O que eles faziam em Ubatuba?

Maitê - O meu pai era advogado e procurador da Justiça e a comarca dele era em Ubatuba. Isso foi no início da carreira dele como promotor público do Estado. Depois fomos para Taubaté e na seqüência para Campinas, e lá eu fiquei. v
Marie Claire - E sua mãe, dona Margô?

Maitê - Além de delegada cultural, minha mãe era professora de filosofia, era música, dava aulas no conservatório.

Marie Claire - Foi ela quem escolheu o nome Maitê, que em tupi-guarani quer dizer "coisa feia", usado como uma espécie de sortilégio pelos índios para afastar os maus espíritos. O nome cumpriu sua função? v
Maitê - Ninguém era Maitê naquela época. Imagina se minha mãe ia pôr um nome comum na filha? Mas ela era cética, atéia, não acreditava em maus espíritos. Talvez tenha tido um insight. Não sei se deu certo, porque veja o que veio depois...

Marie Claire - Temos que falar sobre eles...

Maitê - Não quero falar sobre isso. Não acho que seja um material que eu gostaria de ver manipulado pela imprensa.

Marie Claire - Mas sua vida é marcada pelo que a imprensa rotulou de "trágico acontecimento", sem nunca explicar do que se trata. Por isso, terei que reproduzir o que a Veja publicou em agosto de 84 para dar sentido à nossa conversa ["Quando tinha 12 anos, Maitê viu seu pai ser detido, acusado de matar a própria esposa, depois de uma série de desavenças conjugais. Foi levado a júri e absolvido, com base no argumento de "legítima defesa da honra"].

Maitê - De qualquer maneira, ninguém sabe o tamanho e nem a forma das coisas. Um fato é um acontecimento frio, estigmatizado pela imaginação popular e nada tem a ver com minha experiência pessoal.

Marie Claire - Por isso é que eu tinha a esperança que a gente pudesse falar sobre como se sobrevive a uma tragédia dessas.

Maitê - Essas são coisas que um dia vou contar num livro. Tenho muito pudor. Poderia usar para me autopromover e as pessoas ficarem com pena de mim, tem gente que faz isso. As pessoas usam, vulgarizam fatos importantes que vejo jogados na imprensa como uma coisa qualquer. As minhas coisas não são coisas quaisquer.

Marie Claire - Mas não dá para fazer de conta que o fato não existiu.

Maitê - Mas me resguardo o direito de um dia, se eu quiser, se eu puder, se eu achar que isso é útil para além da minha vaidade pessoal, contar num livro com todas as verdades incluídas.

Marie Claire - Você compreendeu sua mãe?

Maitê - Sinto uma profunda admiração pela minha mãe. Também compreendi a parte dela, as ausências dela, o que ela causou. As coisas foram feitas a dois, né? Eu entendi. Quem não entendeu foi meu pai.

Marie Claire - Não havia um desencanto, um julgamento de filha, uma desaprovação?

Maitê - Havia sim. Num primeiro momento, houve um julgamento, aos mesmo tempo que havia uma compreensão, tudo muito misturado. Hoje, compreendo mais que julgo, já fiz essa parte. E acho que ela não tinha a capacidade de amor que eu tenho, por exemplo, de abnegação. Ela queria sorver a vida em grandes talagadas. Eu também quero, só que eu faço isso depois de atender a minha filha...

Marie Claire - Difícil para uma criança...

Maitê - Ela tinha uma filosofia, era uma hedonista. Mas ela também tem um passado, uma história que a levou a ser como era. Ela era uma pessoa absolutamente vibrante, adorável, viva, alegre, feliz.

Marie Claire - Aos 13, seu mundo ruiu. É difícil imaginar a vida de uma adolescente, depois de um corte tão radical...

Maitê - Depois que minha mãe morreu, fui morar num pensionato luterano. Foi meu primeiro contato com uma religião. Fiquei lá três anos e foi muito bom porque eles me deram amor e apoio. Depois fui bater na porta de um padre e falei: "Escuta aqui, você não é padre? Estou precisando de ajuda. Posso morar aqui uma semana?"

Marie Claire - Você saiu pedindo ajuda?

Maitê - Sim. Aí o padre Chico falou: "Pode minha filha, tem um quarto lá na torre da igreja, você quer?" Falei "quero". Não estava podendo escolher, né?

Marie Claire - E depois?

Maitê - Fui viajar com meu namorado, Ricardo [Afonso Ferreira], primeiro pelo Brasil, América do Sul, depois pelo mundo.

Marie Claire - Como era viver solta, sem raiz?

Maitê - É a sensação de uma enorme liberdade. Vivi dois anos sem nenhuma regra de comportamento. Fui para Escandinávia, Índia, Irã, Áustria. Só tinha uma roupa, um sapato, que escangalhou, e me deram um número 40, muito maior que meu pé. Tenho até hoje as fotos, era um vestido que eu usava com casacão, lavava de noite e de manhã estava seco, mais uma ou duas roupas numa mochilinha.

Marie Claire - Você ficou anos sem conseguir chorar. Hoje é mais fácil?

Maitê - Às vezes. Quase não choro. Quando consigo, é porque já está aliviando. Quando a dor vem do jeito que vem pra mim, vem sem choro. É seca, árida. Por isso, não brinco com esse negócio, não fico deprimidinha. Não dá pra brincar disso.

Marie Claire - Você sabe o que detona isso?

Maitê - Normalmente é quando abro a guarda completamente.

Marie Claire - Daí volta a se fechar?

Maitê - Não mais. O meu ofício me fez desaprender isso. Já tinha me fechado na adolescência. Cheguei num ponto em que não chorava mais. Hoje em dia, me comovo com os outros, com coisas públicas.

Marie Claire - Você é agressiva?

Maitê - Sou, mas é uma agressividade que sai desajeitada, mas depois não deixa resíduos. Às vezes, sai desproporcional, assusta. Mas me livro dela completamente.

Marie Claire - E como lida com o mau-humor?

Maitê - Não suporto, porque, quando sofro, sofro muito. Eu sofro de aniquilar, um sofrimento absoluto. Não fico fazendo reclamaçãozinha da vida.

Marie Claire - E quando você fica deprimida?

Maitê - Eu quase morro, é uma morte, é muito densa.

Marie Claire - Hoje, só você e a Maria moram neste apartamento?

Maitê - Antes eu achava péssimo! Porque era a cara do Paulo [Marinho, ex-marido e pai da Maria], que tem gosto convencional. Por isso, eu não gostava de morar aqui. Agora tem a minha cara. Achei ótimo quando ele foi embora.

Marie Claire - Vocês ficaram 12 anos juntos.

Maitê - Até hoje existe um amor muito forte. Não posso dizer certas coisas porque ele está casado, eu também tive outro casamento. Mas acho que seremos as pessoas mais importantes na vida um do outro. A relação não acabou e não acabará até a minha morte. Nunca deixo de amar as pessoas que amei. Deixo de gostar delas, mas de amar, não.

Marie Claire - Você recentemente separou-se do [fotógrafo] Edgard Moura. Foram dois anos e pouco juntos...

Maitê - Durou pouco para o meu padrão, porque sou de casamentos longos.

Marie Claire - O mais longo foi o Paulo?

Maitê - Teve o Ricardo que, proporcionalmente, foi uma relação longa, porque foram cinco anos quando a gente tinha 17. Depois, tive o Ted [o agrônomo Aristides Machado], que é meu amigo até hoje. Foi um grande amor, morei com ele. Pra eu morar é um pulo, né? Porque desde os 13 que não tenho casa, portanto não tenho que fazer grandes considerações.

Marie Claire - Ricardo, Ted, Paulo e Edgard, pode-se dizer que foram quatro casamentos?

Maitê - Não. Eu me casei com o Paulo e tive os outros relacionamentos.

Marie Claire - O Victor Fasano foi um deles?

Maitê - Foi.

Marie Claire - Levei um susto com aquela entrevista que ele deu, em que disse que algumas idéias nazistas são excelentes e declarou que queria ter um filho com você.

Maitê - Imagine eu, que estava ali com ele...

Marie Claire - Você ficou em estado de choque?

Maitê - Fiquei. O Victor não sabe se relacionar, não conhece as armadilhas, não avalia como o que fala repercute no outro.

Marie Claire - Mas ele é lindo.

Maitê - Ele é, isso ajudava muito. Tive uma paixão exclusivamente estética por um tcheco. Ele era tão lindo, tão lindo... Só que era burro igual uma porta.

Marie Claire - Estranho se apaixonar pela beleza.

Maitê - Pois é, mas me apaixonei. Quando eu falava "não, com porta não dá", eu olhava pra ele dormindo, tão lindo. Porque nem transar ele transava direito. Ele fumava muita maconha, então ele não tinha muita vontade, sabe? Tocava violão, e só. E eu ficava toda animada pra transar, pra namorar, quando via, ele estava dormindo.

Marie Claire - Já aconteceu outras vezes?

Maitê - Com o Victor, não foi só estético, eu gostava dele e era um desafio entendê-lo. Achava que podia entender e explicar pra ele como que é o negócio.

Marie Claire - Pura onipotência, não?

Maitê - É, eu tenho isso. Eu caso por isso, ainda.

Marie Claire - Você tenta consertar as pessoas?

Maitê - Tento, mas juro que não vou mais tentar. Na próxima, quero pronto.

Marie Claire - Isso tem a ver com os 40 anos [que Maitê completa em janeiro]?

Maitê - Ah, com tudo. Por que tem que consertar todo mundo? Ainda mais agora, com essa idade, para que eu vou namorar um menino de 20?

Marie Claire - De 30, digamos...

Maitê - É, a gente nunca fala nunca. Pode ser que aconteça uma pessoa interessantíssima com 30, pode acontecer.

Marie Claire - Homens maduros te atraem? Geralmente eles estão prontos.

Maitê - Atraem prontos e não-prontos. Eu me atraio por todo tipo de gente. Acho tudo interessante. O Paulo não tem nada a ver comigo, nada! Mas na intimidade era muito bom. O Victor também não. O Ted era quem mais tinha.

Marie Claire - Você sempre disse odiar musculação, mas na época do Victor Fasano, caiu na malhação. É verdade?

Maitê - Ah, mas se o meu namorado voar de asa delta, eu também vôo.

Marie Claire - Então é "Maria vai com as outras"?

Maitê - Sou Maria vai com o outro.

Marie Claire - Você namorou um asa-deltista famoso, o Micha?

Maitê - Namorei e voei muito de asa delta nessa época. Eu faço qualquer coisa.

Marie Claire - Mas você não se aborrece em ter que fazer o que não gosta?

Maitê - Eu ia para fazer companhia ao Victor. Não ia para malhar. O objetivo dele era malhar, o meu era estar com ele. Se ele gostasse de tomar o chá das cinco, a gente tomava o chá das cinco, entendeu?

Marie Claire - E sexo?

Maitê - Ah, é importantíssimo! Não sabia que era tão importante na minha vida. Fui percebendo ao longo do últimos relacionamentos como isso é fundamental. Achava que não. Na minha adolescência, achava muito chato. Era problemática.

Marie Claire - Não sabia qual era o barato?

Maitê - Não sabia. A noção de pecado e mais as coisas da minha vida particular, tudo isso embolou o meio de campo quando a sexualidade estava aflorando. Aos 20 anos a coisa era boa, mas foi melhorando e, hoje, acho muito bom. Mas também passo sem.

Marie Claire - Pode ficar sem transar um bom tempo que não fica mal?

Maitê - É, mas quando começo a namorar, quero bastante.

Marie Claire - Você seduz com facilidade?

Maitê - Abro a guarda e a pessoa vem. Isso é que rola. Manifesto sem pudor. Mas quando vejo que está acontecendo um sentimento além do tesão, fico sem jeito também. Falo a coisa errada, meto os pés pelas mãos, também faço isso. Mas aí o charme está justamente em ver essa mulher bonita meter os pés pelas mãos.

Marie Claire - Que tipo de homem provoca isso?

Maitê - Poucos. A única pessoa que me deixa assim, por outro motivo, é o Caetano Veloso. Todas as vezes que encontrei o Caetano foi na fase das drogas e sempre que abri a boca para falar com ele, falei alguma coisa imbecil. Tenho consciência.

Marie Claire - Você nunca conseguiu ter uma conversa com o Caetano?

Maitê - Sóbria, nunca. Não bebo e não faço mais nada, mas prefiro calar a boca quando encontro ele hoje. A imagem que ele deve fazer de mim é a pior possível.

Marie Claire - Você já foi adepta do pó?

Maitê - Já cheirei uma época. Experimentei de tudo. Mas parei e não tenho a menor vontade. Hoje, tenho repulsa a situações em que o pó surge, não tenho condescendência, tenho horror. Não tenho a menor tolerância pra gente cheirada, não quero pra mim e não sou comprenssiva, apesar de ter usado. Acho chato.

Marie Claire - E se você se apaixonar por um homem que use?

Maitê - Se usar, não pode ficar comigo. Não quero fazer amor com uma pessoa que use pó, acho que pega em mim. Peguei um bode horrível. Tenho amigos que fazem, mas, perto de mim, não.

Marie Claire - E cigarro?

Maitê - Fumei bastante e parei.

Marie Claire - Maconha?

Maitê - Fumei muito quando era adolescente, fui muito maconheira. E parei.

Marie Claire - Nada, nada?

Maitê - Nada! Água.

Marie Claire - Como é que extravasa?

Maitê - Gosto muito de beber, mas gosto demais, então não bebo. Estou descobrindo novas válvulas de escape. Não digo que deva ser espiritual, porque é mais. É outro patamar que eu vou. Não tem a ver com religião. É outro estado de espírito que busco, que é mais prazeroso do que qualquer uma dessas coisas.

Marie Claire - O que é? Meditação?

Maitê - Não é meditação. Não acredito nessas coisas aprendidas em cursos. É um silêncio e recolhimento absolutos. Um lugar que eu vou, mágica mesmo. Pura magia.

Marie Claire - Como o Daime entrou na sua vida?

Maitê - Depois que meu pai resolveu morrer, eu tinha acabado uma novela [O Salvador da Pátria] e as duas coisas tinham corrido juntas, a doença dele [câncer no cérebro] e o trabalho. Eu estava cansada, cansada, cansada... Um mês depois fui bater no Daime.

Marie Claire - Os rituais do Daime provocam um estado alterado de consciência. Como foi a sua primeira vez?

Maitê - A primeira vez que tomei Daime fiz uma limpeza que zerou a minha conta do passado. Foi mortal. O passado ficou no passado. Sofri todo o meu sofrimento em duas horas. Foi a coisa mais terrível e mais maravilhosa que vivi na vida.

Marie Claire - Como foi?

Maitê - Toda a vivência estava ali presente novamente, era muito mais que uma coisa racional, era insuportável e eu não tinha o que fazer. Estava enfiada ali no meio. Tinha certeza que eu ia morrer e morri. Morri e saí em um segundo, com mais um gole de Daime. Abriu um portal e eu passei. Aí o passado ficou para trás.

Marie Claire - Morte e renascimento...

Maitê - Isso parece muito esotérico para se falar, mas foi uma experiência catártica, a mais catártica da minha vida. Tudo o que fiz nos três anos seguintes, muito intensamente, foi refazer isso.

Marie Claire - Foi o Daime que lhe permitiu ter a Maria, depois de dez anos casada tentando engravidar...

Maitê - No Daime eu me desmasculinizei. Eu era muito yang. O Daime me fez reencontrar a mulher que sou.

Marie Claire - "As feministas que me desculpem, mas parir é fundamental", você disse.

Maitê - Descobri que, antes de mais nada, vim aqui para parir. Esta é nossa função maior. Quando entendi isso profundamente...

Marie Claire - O corpo respondeu.

Maitê - Imediatamente. Quando entendi, fiquei grávida dois dias depois.

Marie Claire - E terapia, você fez?

Maitê - Freudiana, mas pouquíssimo ortodoxa. Depois parei porque achei que virou conversa de botequim quando entrei no Daime.

Marie Claire - Você tinha alguma religiosidade?

Maitê - Depois do pensionato luterano, fiz incursões pela umbanda, candomblé, budismo, entrei num ashram, na Índia, e até na Igreja Católica eu sinto a presença de Deus. Mas fui criada numa família de ateus. Para eles, religião era uma coisa meio de muleta.

Marie Claire - Pessoas extremamente racionais podem soltar suas feras a qualquer momento, sem controle...

Maitê - Fui criada por pessoas maravilhosas, expoentes, e o que fizeram foi o que fizeram. É muito difícil compreender do lado de fora. Eu estava do lado de dentro. Então deu para eu ver, não sei se a compreensão reduz. Só resta assimilar. A dor existe e jamais será apagada. Você desculpa, mas não deixa de doer porque desculpou. É sempre algo que você sabe que poderia ter deixado de acontecer e, ao mesmo tempo, não poderia, porque aconteceu.

Marie Claire - Você conseguiu perdoar?

Maitê - Não sei. Tenho uma capacidade enorme de amar. Não sei se perdoei.

Marie Claire - Você teve uma relação boa com o seu pai até o fim?

Maitê - Tive uma relação maravilhosa, profunda. Foi a relação de maior amor da vida dele. Claro que a gente brigava, que a gente discutia. Mas todas as coisas foram faladas. As agressões, feitas. A gente se falou todas as mágoas. Eu passei a limpo com ele.

Marie Claire - Então esse carma foi queimado, pelo menos de sua parte.

Maitê - Queimadinho. Deu tempo de fazer, porque no final da vida ele ficou doce. Quando ficou doente, eu falei: "Drops (eu chamava ele de Drops), por que você não foi esse doce durante a sua vida inteira? E deixou pra ser agressivo agora, nesses seis meses, para ficar mais fácil a despedida?" Ele virou uma pérola. Mas era muito difícil de aflorar. Fora minha mãe, fui quem ele mais amou.

Marie Claire - Você chamaria de amor?

Maitê - Chamaria de amor sim. Tinham outros componentes, altamente destrutivos. Comigo sempre foi mais bem resolvido porque eu peitei ele, e muito. Eu era clara, sempre fui. E sempre joguei muito aberto.

Marie Claire - Mas ele devia ter uma culpa enorme em relação a você.

Maitê - Ele não era uma pessoa convencional. Apesar de o sonho dele ser o suicídio, para viver ele precisou elaborar essa culpa. Ele sabia que foi vítima do seu próprio bicho, então não pedia desculpas.

Marie Claire - Você adotou a Maitê Proença em homenagem à sua mãe?

Maitê - Não fui eu que escolhi. Acharam Maitê Gallo feio, então tive que adotar o Proença. Foi assim que ficou. O "Drops" não gostou, lógico. Deve ter achado que era mais uma das agressões. E talvez tenha sido uma pequena vingança pessoal, mas juro que não foi consciente.

Marie Claire - E seu irmão René [oito anos mais novo], é uma relação próxima?

Maitê - É difícil. Sobrou só ele e eu. Minha relação com ele foi muito de mãe protetora.

Marie Claire - Quando o Sílvio de Abreu [autor de Torre de Babel] propôs para você a Clara, personagem que se apaixona por um homem que mata a mulher, isso não perturbou você?

Maitê - Foi proposital. O Sílvio conhece a história e escreveu o papel para mim.

Marie Claire - E você não se incomoda com isso?

Maitê - Não. Foi pior com o Daniel [Filho] em A Vida como Ela É. Acho que os diretores nem têm consciência disso, mas o autor pensa. O Sílvio me falou, abriu o jogo comigo. Ele é muito meu amigo e eu falei que tudo bem, que fazia numa boa.

Marie Claire - Me espanta que você não diga não.

Maitê - Não digo porque não é um recalque. Não tem um recalque, eu tive que lidar com isso. A minha vida foi falada na cidade inteira. Eu falei disso durante anos. Não me incomodo, a não ser que o Sílvio não tivesse me falado. Mas ele me disse: "Maitê, eu escrevi pra você e eu sei que você entende isso." O Silvio foi honesto e eu topo qualquer coisa se você for clara comigo. Os meus medos são quando está escuro. Subterfúgios comigo, nem vem. Pulo fora correndo quando descubro que é escondidinho, que é enganação.

Marie Claire - Às vésperas de completar 40 anos, há risco de cair na eterna armadilha do medo de envelhecer?

Maitê - Ah, vou cair mesmo. Ainda preciso trabalhar essa transição porque sou atriz. Essa ponte precisa ser feita enquanto as pessoas ainda estão percebendo a beleza, porque senão acabam-se os papéis. A Meryl Streep disse que no ano passado recebeu três convites. E olha que a Meryl Spreep é o que há de melhor, não tem ator melhor que aquilo.

Marie Claire - Vai enfrentar uma plástica?

Maitê - Acho que vou. Hoje em dia tenho um certo medo, fico pensando: "Se não fosse atriz, talvez não fizesse, mas sendo atriz..." Sim, penso em fazer.

Marie Claire - Você está acabando uma novela. Fica aflita em definir o próximo passo?

Maitê - Nem posso. Eles vão me botar para trabalhar logo em seguida porque fiquei seis anos sem fazer novela.

Marie Claire - E isso foi delicadamente cobrado?

Maitê - Hoje em dia, cada vez menos delicadamente. Então, não tenho ilusões, sei que vou pegar firme no couro.