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Confissões de Maitê
Estado de S.Paulo - 04/2008
 


Sem medo das verdades doídas, a atriz autografa hoje, em São Paulo, seu primeiro romance, o confessional Uma Vida Inventada.

 
 
 
 
 
 
Por Flávia Guerra

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer", dizia Mario Quintana. Na vida, e nas letras, de Maitê Proença, todas as mentiras aconteceram. E com requintes de realidade. Ou foram inventadas por um deus caprichoso que, num belo dia (ou nem tão belo assim, pois começou a escrever para espantar a morte de um amor), descobriu que havia ganhado para sempre a vontade de despejar o mundo no papel. Esse deus é Maitê. Seguindo a máxima de que a melhor maneira de se prever um futuro é construindo, ela reconstrói seu passado em Uma Vida Inventada, livro que autografa hoje na Livraria da Vila, com leitura de Irene Ravache.

Maitê já havia lançado Entre os Ossos e a Escrita, compilação das crônicas que escreveu para a revista Época. Desta vez, deixa de falar da 'vida dos outros' para falar da sua. Mas não nos espelhamos nas entrelinhas de cada bilhete que escrevemos? "Claro! Uma mulher falando de futebol americano será sempre uma mulher. Já falava de tudo, mas sempre com meu olhar", responde a atriz, comentarista do Saia Justa, do GNT, e também diretora de teatro.

Desta vez é a sua biografia que ela despeja, sem poupar as entrelinhas mais dolorosas, como o assassinato da mãe pelo pai quando ela tinha 12 anos, em um livro que faz correr paralelamente o relato histórico e a ficção. Não esquecer: as paralelas se encontram no infinito.

E é esse olhar de Maitê, que se lança agora em nossa direção - olhos de menina-moça com pés de sátiro, que se embrenhava pelas Campinas da cidade onde passou a morar depois que o pai foi transferido de Ubatuba (onde ela cresceu tendo como luxos o mar e quase roupa nenhuma). Esse olhar nos convida a deixar os preconceitos e ler o que uma atriz tem para dizer diante de um mundo que existe, mas parece imaginação.

Imaginação, divagação, empenho e, por que não?, estilo e prosa não faltam a Maitê. Ouse passar pela primeira porta do preconceito e descobrir que a narrativa dupla que Maitê escolheu para seu primeiro, e inclassificável, livro, contém a realidade da biografia. E também o lirismo que todo romance traz, sem deixar de ter a observação de um diário de bordo - viagens que vão do Ceará à China, passando pela Birmânia e Afeganistão.

Deixemos as velhas, e óbvias, questões sobre os segredos de beleza de Maitê, o seu lado aquariano que surfa nas ondas de uma dose de Santo Daime, de quanto gostaria de ter mais tempo para deitar na rede, de como engravidou aos 16 anos em sua primeira vez (e praticou um aborto e o admitiu), entre outros grandes pormenores de Uma Vida Inventada, e falemos do medo de se lançar em uma vida literária. Como diz a autora, corajoso não é quem não tem medo, mas quem tem medo e pula. Então, pulemos:

 
Estado: Soube que seu pai havia assassinado sua mãe em um especial da TV. Era chocante descobrir, mas, ao mesmo tempo, você falou do assunto com sobriedade. Como decidiu contar agora essa e outras passagens tão difíceis de sua história em Uma Vida Inventada ? Houve um critério técnico para criar a narrativa?

Maitê: Critério nenhum. Tentei escrever. E quando tinha umas 60 páginas, liguei para meu editor e disse: "Não sei o que é isso. Se presta. Se estou perdendo tempo. Vou te mandar." Ele respondeu: "Não vou te dizer nada. Não tenho a menor idéia de que gênero é. Mas segue nisso."

Estado: De fato. Não é uma biografia clássica, nem tampouco um romance.

Maitê: Exatamente. Há duas histórias que correm lado a lado. Isso também não foi pensado. Precisava da história paralela. Minha idéia não é contar o fato. O que me interessa é o que nos toca. O livro é contado na primeira e na terceira pessoa. Uma está dentro da outra. A ponto de não se saber o que é verdade. O que as pessoas sabem de mim? Da minha vida adulta? Constroem um recorte do que vêem na tela, do que falo e do que falam na imprensa. No fundo, sou outra. E até muito normal. Mas, em geral, a imprensa não fala das pessoas normais. A personagem também não sou eu. A única coisa que eu sempre quis fazer neste livro era este jogo de pistas falsas. Você pode criar sua verdade.

Estado: Daí o passado voltar de forma factual e também lírica?

Maitê: Sim. Porque não se consegue se livrar do passado. Ele volta, infiltra-se. Uma das formas de lidar com ele é escrever um livro. Durante 27 anos jamais toquei nos assuntos mais dramáticos da minha biografia. Achava que uma carreira não se faz com a piedade de ninguém. Mas, num programa de auditório, o apresentador achou que podia contar minha história para o Brasil. E todos acharam que também podiam.

Estado: Mas, apesar de conhecido, continuou um assunto um tanto velado.

Maitê: Sim. Me recuperei do choque. Tentei explicar, em uma crônica, por que não ia falar disso. Não deu certo. Depois de dois anos, pensei: Se esta história é minha, posso contá-la. E não saberia falar certas coisas. Não por trauma, mas porque não acho adequado. A maneira que escolhi é através da literatura, sem autopiedade, que execro.

Estado: Em tempos em que pessoas são catalogadas, você teme as críticas?

Maitê: Não. Porque eu falo de um universo que me é legítimo. Este livro brota do profundo do meu ser. Todos temos mecanismos de defesa. Cada vez mais, tento me livrar dessas camadas protetoras. A Maitê pode tê-las, mas a pessoa que escreve, não. Senão, não há verdade.